
NORMA COURI
A rosa azul é um desafio para os inventores de rosas do mundo inteiro. Até hoje nenhum conseguiu uma rosa azul. O que eles não sabem é que há muito, muito tempo, existiu uma rosa azul.
Alguma coisa de muito importante estava acontecendo naquele canteiro. As rosas se moviam aflitas e só se ouvia o sussurro e o remexer de suas pétalas no meio da madrugada.
As mais velhas achavam que o mundo ia acabar. As mais novas, assustadas, tinham medo de perder o seu título de rainha das flores. E todas as rosas se uniram.
As brancas, puras e aristocratas, símbolo do silêncio, misturavam-se pela primeira vez com as vermelhas, ruidosas, símbolo do amor. Todos os tons de amarelo estavam juntos, até os alaranjados, que até agora não haviam sido aceitos pelas rosas tradicionais (brancas, amarelas e vermelhas). E as de tons róseos, que sempre negaram qualquer descendência das vermelhas, não tardaram a se aproximar.
Afinal, o que fazer com a rosa azul???
No fundo do canteiro, encoberta por uma redoma, uma rosa se encontrava sozinha com sua cor estranha, sem saber ainda ao certo o que fazer. A rosa nascera azul.
Em todo o canteiro, ela era a única. Seu inventor já dera vida aos tipos mais diferentes de rosas, e rosas continuavam a nascer de todas as cores em seu canteiro. Do cruzamento de espécies de coloração amarela com as de coloração vermelha, ele fez nascer rosas cor de salmão ou cor de laranja, em vários tons. Cada dia a variedade de rosas aumentava. E assim, conseguiu os coloridos mais incomuns. Mas nunca o azul.
Desde que as rosas existem na terra, ou seja, há mais de 35 milhões de anos, os rodólogos (inventores de rosas) do mundo inteiro procuram uma rosa azul. Alguns afirmaram que tal cor não existia na organização cromossômica da planta. Outros, que nem através da radiação atômica seria conseguida.
Mas lá estava ela. Azul-escuro nas bordas e claro no centro das pétalas. Azul, azul, como se não fosse mistério algum ser a única entre as 16 mil rosas que existem na Terra. Era a rosa mais cara do mundo e brevemente seria a mais cobiçada. Mas… seria feliz???
A rosa azul espiava as outras de seu canto. Alguma coisa estava errado. Começava a sentir um ligeiro mal-estar. Por que as outras não estavam presas, também, numa redoma? Por que a olhavam tanto?
Então percebeu: todas tinham companheira. Só ela estava só. Os grupos se faziam, fortes e unidos. E conversavam, sem parar. E ela, com quem conversaria???
A rosa azul esperou a noite chegar e então chorou. Não de medo, mas de solidão. Ser diferente das outras era tão triste…
Se houvesse um meio de ficar igual! Mas… como? Ela era rosa há tão pouco tempo que nem sabia de cores. Como mudar??? Enquanto pensava, a rosa azul chorava. Sem parar. Na redoma, só e única num mundo igual, as lágrimas iam-se acumulando. Então não couberam mais e desceram pelo canteiro até formar um rio, e rolaram pelo rio até cair no mar. Assim adormeceu.
Quando o inventor voltou, feliz, ao seu canteiro, com os mais importantes rodólogos do mundo, não encontrou a rosa azul.
Debaixo da redoma que colocara, uma rosa branca e linda se erguia. Estava feliz. Não se distinguia entre as outras tantas rosas brancas, igualmente belas e felizes. A seu lado, corria um rio azul, já quase seco pelo sorriso do sol que cumprimentava a nova rosa.

Norma Couri é uma jornalista brasileira com uma trajetória de destaque na área, com mais de 48 anos de atividade profissional.
Formação acadêmica
– Graduou-se em Jornalismo.
– Possui mestrado pela Columbia University, em Nova York.
– Concluiu doutorado em História Social na Universidade de São Paulo (USP).
– Atualmente, desenvolve um projeto de pós-doutoramento em Jornalismo.
Carreira profissional
– Trabalhou em importantes veículos de comunicação do Brasil, como o Jornal do Brasil, a revista Veja, a Folha de S.Paulo, o Estadão e a revista Época.
– Foi correspondente do Jornal do Brasil em Lisboa, Portugal, e enviada especial da revista Visão no Brasil.
Opiniões e contribuições
– Defende a importância dos jornais impressos como pilar do Estado democrático, argumentando que eles permitem uma leitura mais aprofundada, reflexiva e com menos erros do que o conteúdo publicado nas redes sociais.
– Acredita que as novas gerações de jornalistas precisam desenvolver habilidades como curiosidade, garra, interesse por diversos assuntos e “faro” para notícias, além de investir na leitura de obras clássicas e de referência.
– Exalta o legado de profissionais como Alberto Dines, considerado o primeiro “ombudsman” brasileiro, que desafiou a ditadura militar através de sua coluna na Folha de S.Paulo.
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