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Ariano Suassuna (1927-2014) foi um dos maiores escritores, dramaturgos, poetas e defensores da cultura brasileira, especialmente a nordestina. Nascido em João Pessoa (Paraíba), em 16 de junho de 1927, ele veio de uma família influente — seu pai, João Suassuna, era governador do estado e foi assassinado em 1930 durante a Revolução. Essa tragédia pessoal marcou sua vida e obra. Suassuna formou-se em Direito, atuou como advogado, mas dedicou-se principalmente à literatura, ao teatro e ao ensino (foi professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco). Em 1970, fundou o Movimento Armorial, que buscava criar uma arte erudita brasileira inspirada nas raízes populares do Nordeste, misturando elementos como literatura de cordel, folclore, mamulengos e cavalgadas.
Sua produção é marcada pelo humor irreverente, crítica social afiada, fusão do sagrado com o profano, regionalismo sertanejo e influências do barroco, do modernismo e da tradição ibérica (como os autos medievais). Suassuna valorizava a “malandragem” popular como forma de resistência, a religiosidade católica misturada ao folclore e a exaltação da cultura brasileira contra influências estrangeiras. Ele foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1989 e faleceu em 23 de julho de 2014, no Recife.
Principais obras e resenha breve
Suassuna escreveu mais de 18 peças teatrais, romances, poemas e ensaios. Aqui vão as mais emblemáticas:


O Auto da Compadecida  (1955)
Sua obra-prima e a mais famosa. Essa comédia teatral ambientada no sertão paraibano segue as aventuras de João Grilo (esperto e malandro) e Chicó (covarde e mentiroso), dois pobres que vivem de golpes para sobreviver. A trama envolve crítica à ganância do clero, dos poderosos e à desigualdade social, com toques de folclore, religiosidade e humor absurdo. O julgamento final das almas, mediado pela Virgem Maria (a “Compadecida”), simboliza a misericórdia divina e a redenção popular.
Resenha crítica: É uma obra genial que universaliza o Nordeste — como disse Tolstói, “fale de sua aldeia para ser universal”. O humor satírico e a linguagem popular tornaram-na um clássico do teatro brasileiro, adaptada para minissérie (1999) e filme (2000, com Selton Mello e Matheus Nachtergaele), conquistando gerações. Representa o auge da dramaturgia moderna no Brasil, misturando comédia de costumes com profundidade filosófica.


O Santo e a Porca (1957)
Comédia que adapta o tema da avareza (inspirada em Plauto e Molière) para o contexto nordestino. O protagonista, Eurico Árabe, é um sovina que guarda seu dinheiro numa porca de barro e é devoto de Santo Antônio (casamenteiro). A trama gira em torno de intrigas familiares para roubar a “porca” e casamentos arranjados.
Resenha crítica: Com humor leve e crítico, satiriza a hipocrisia moral e a ganância, contrastando o sagrado (o santo) com o profano (a porca como cofre). É uma peça acessível e divertida, que destaca a habilidade de Suassuna em transpor clássicos universais para a realidade brasileira.

Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe  do Sangue do Vai-e-Volta (1971)
Seu grande romance (mais de 700 páginas), escrito ao longo de uma década. Narrado por Dom Pedro Dinis Quaderna, um “rei” sertanejo preso por subversão, que defende sua linhagem real brasileira (ligada ao mito sebástico e à Pedra do Reino, episódio histórico de seita no sertão do século XIX). Mistura memória familiar, história, mito, poesia e crítica política.
Resenha crítica: Uma epopeia nordestina áspera e mestiça, com realismo mágico, neologismos e intertextualidade rica. Explora temas como identidade brasileira, resistência rural e redenção pessoal (ecoando a morte do pai de Suassuna). Adaptado para minissérie em 2007, é considerado sua obra mais ambiciosa em prosa, fundindo erudito e popular de forma magistral.


Outras obras notáveis:  A Farsa da Boa Preguiça. (1960), que explora a malandragem; Uma Mulher Vestida de Sol (1947, tragédia inicial); e ensaios como Iniciação à Estética (1975).


O legado de Suassuna é imenso: ele elevou a cultura popular nordestina a patrimônio nacional, influenciando teatro, cinema e TV. Suas obras são festivas, críticas e profundamente brasileiras — “arte é missão, vocação e festa”, como ele dizia.

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